terça-feira, 20 de outubro de 2009

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Do banco da praça onde comeram a primeira maçã do amor observavam tudo com muita ternura. As crianças corriam atrás da bola. Entreolharam-se. Poderiam lamentar que a vida era mais bonita com a agilidade do corpo e da mente dos jovens. Preferiram sorrir: as rugas e cicatrizes eram reflexos de uma vida feliz, de um amor que jamais acabaria. Voltaram para casa, as mãos entrelaçadas e a alma remoçada.

sábado, 17 de outubro de 2009

Gramática

O substantivo
É o substituto do conteúdo

O adjetivo
É a nossa impressão sobre quase tudo

O diminutivo
É o que aperta o mundo
E deixa miúdo

O imperativo
É o que aperta os outros e deixa mudo

Um homem de letras
Dizendo idéias
Sempre se inflama

Um homem de idéias
Nem usa letras
Faz ideograma

Se altera as letras
E esconde o nome
Faz anagrama

Mas se mostro o nome
Com poucas letras
É um telegrama

Nosso verbo ser
É uma identidade
Mas sem projeto

E se temos verbo
Com objeto
É bem mais direto

No entanto falta
Ter um sujeito
Pra ter afeto

Mas se é um sujeito
Que se sujeita
Ainda é objeto

Todo barbarismo
É o português
Que se repeliu

O neologismo
É uma palavra
Que não se ouviu

Já o idiotismo
É tudo que a língua
Não traduziu

Mas tem idiotismo
Também na fala
De um imbecil

palavra cantada

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

não dá pra entender...

...o brasil se metendo nos problemas políticos alheios. pelamordedeus, não resolve nem os seus, quer fazer o que lá em honduras, hein?! lula e seus sermões cheios de moral...de cuecas.

...o comercial das havaianas ter sido retirado do ar porque algumas pessoas se sentiram ofendidas com a velhinha insinuando que a neta deveria dar uns pegas no cauã reymond.

...a proposta de aumento de salário pros senadores.

...as pessoas acharem que a professora do guri que pichou o colégio (recém pintado) agiu errado.

tá tudo errado!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Conca la Conca

estou longe (muito longe) de ser uma expert em comentários futebolísticos mas, modéstia à parte, das poucas vezes que eu ouso dar alguma opinião, eu normalmente acerto.
desde o ano passado venho dizendo que o grêmio deveria contratar o conca. sempre gostei dele, é rápido, grande articulador, se movimenta bem e avança com facilidade.

ontem, confirmei ainda mais a minha opinião. o baixinho levou o flu sozinho, até merecia o título de craquerádiogaúchacervejasol, não fosse o detalhe dos 5 gols que o time dele tomou.


não sei se o grêmio já extrapolou a cota de jogadores estrangeiros, mas se esse fosse o caso, tchau pra ti, perea.

lanço aqui, sozinha, a campanha "Vem, Conca!"

sigam-me os bons.

***

o fluminense talvez seja o único time brasileiro que tem a minha simpatia além do meu, lógico. não gritei nada contra eles ontem. fiquei até meio triste.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

colírio

me dá esse meio sorriso pra tu ver só, ô diôni dép.

*suspiro*

para a menina-pássaro

Sentou-se na mesma mesa que costumavam ocupar quando adolescentes. Ficava bem perto da praia. Virou-se para o horizonte, como se quisesse diminuir a distância entre elas. Sentia falta daquela que havia sido por tantos anos sua melhor metade. Rascunhou suspiros de saudade num guardanapo pensando em mandá-los, quem sabe, em um cartão postal. Não deu tempo. A brisa ganhara força e subitamente furtou-lhe o papel das mãos levando-o para o alto. As palavras dançaram com as andorinhas, saboreando o vento que prenunciava o verão. Acompanhou o papel até que ele sumisse por completo. Sorriu. Tinha certeza de que aquelas palavras haviam chegado ao seu destino.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

era uma vez...

se tu é do tipo que sonha com um príncipe encantado, gosta de tudo cor-de-rosa, acha que o cara certo vai chegar montado num cavalo branco e que vocês vão ser felizes para sempre, sinto muito.
acorda, queridinha!
nem as princesas são felizes para sempre...
...pelo menos é o que diz a Dina Goldstein.



Chapeuzinho Vermelho versão comedora compulsiva

Rapunzel X quimioterapia

Jasmine na al-qaeda


Branca de Neve versão amélia

Bela ficando parecida com a Angela Bismarchi

terça-feira, 15 de setembro de 2009

do outro lado da vida

eu tinha 8 anos quando ghost estreou. vi em vídeo com meus tios e tia, numa noite de algum final de semana. os 3 mais novos ainda moravam com meus avós, eram adolescentes praticamente. eventualmente eu ia dormir lá, jogava atari com meu tio mais novo e virava as noites vendo filmes e comendo engordantes com eles.

lembro de comentar que a demi moore estava sem brincos e um dos meus tios respondeu: "pra quê? ela não precisa disso..."

eu concordei. achava ela linda. talvez tenha sido ela a primeira mulher a me fazer gostar de cabelos curtos.

aí tinha o patrick swayze. não, ele não era o meu tipo, mas pra mim, aos 8 anos, ele era o protótipo do que eu achava que um namorado deveria ser. e a cena que nunca me saiu da memória foi justamente essa aí embaixo. achei horrível eles se sujando, mas ao mesmo tempo, ela era tão intensa e clichê que eu nunca mais esqueci.


e agora...foi-se o patrick. ele era de houston. eu passei 3 meses em houston. somos praticamente conterrâneos. fiquei triste. mas ele vai ser um espírito do bem.

a propósito: nesse momento, eu estaria morrendo de medo de ser a whoopi goldberg.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

novo sinal (de vida)

(bocejo)

acordei da hibernação. voltarei a postar como sempre, espero.

*

eu queria ter postado ontem que foi dia 09/09/09, mas eu fui dormir às 22:30, que nem uma velha, depois de tomar uma xícara de café-com-leite e comer bolachinhas com manteiga. Ontem foi uma data legal, mas passou, como todas as outras. tudo bem, eu espero o dia 10/10/10.

*

eu achei o máximo essa nova campanha pela conscientização do uso da faixa de segurança. já tava mais do que na hora de fazer o pessoal se ligar de que aquelas listras desenhadas no chão não são instalações da bienal. eu sempre disse que sou uma pedestre agressiva. agressiva no sentido de atravessar na faixa, sem sinaleira e obrigar os carros a pararem, mesmo que seja em cima de mim. a vida toda bati boca com motoristas mal-educados que, só porque andam de carro, acham que são melhores que o povão que pega bus lotado.
ontem mesmo xinguei um cara que parou em cima da faixa, me obrigando a invadir a pista perpendicular no cruzamento. é revoltante.
enfim, acredito muito nessa campanha. pode ser que demore um pouco pros pedestres respeitarem seu lugar de travessia bem como os motoristas entendam que a faixa é de PEDESTRES, mas vai dar certo. Claro que, se tivessem achado um jeito de multar os pedestres que atravessam fora da faixa e os motoristas que não respeitam ela, seria muito mais rápida a conscientização. Mas...tenhamos fé. Depois que devolveram minha agenda com tudo dentro, no dia do meu aniversário, ainda acredito nos seres humanos.





terça-feira, 28 de julho de 2009

raiva

não dá pra entender a mentalidade de algumas pessoas.
tem certos comportamentos que me irritam profundamente, me desanimam, me fazem repensar se eu realmente quero ter filhos, afinal, nem a educação que a gente recebe em casa parece ser suficiente pra nos proteger de desaforos coletivos.

sábado resolvemos ir ao cinema. cinemark. lugares marcados.
cada vez mais fácil comprar ingresso, nem precisamos mais entrar na fila se temos o visa electron. escolhemos os lugares a dedo - literalmente - bastou encostar na tela. fila M, poltronas 9 e 10. uau! modernidades! porto alegre está entre as capitais mais modernas, hein?!

fomos jantar. tranquilo, temos lugar marcado.

me dei ao trabalho de pegar novamente o ticket pra conferir a fila certa antes de começar a subir, pra evitar confusão. imaginem a minha surpresa ao chegar nos nossos lugares e ver um casal muito bem acomodado nas poltronas que eu havia escolhido.

-desculpa, mas as poltronas 9 e 10 são nossas.
-ah, é que a sessão tá vazia, achei que não teria problema. - a ridícula com cérebro de ervilha respondeu na maior cara de pau.

fiquei ali parada por alguns segundos, sentindo o sangue subir até sentir as bochechas ardendo e os olhos injetados de raiva. não é possível. isso é no mínimo um desaforo. abri a boca pra dizer que eu lamentava, mas que os lugares eram MEUS pelas próximas 2 horas, mas não deu tempo.
eu não sei por que motivo o vinícius foi me empurrando pro meio da fileira tentando evitar que eu fizesse valer o meu direito. ele é a pessoa mais briguenta que eu conheço, xinga TODAS as pessoas no trânsito, por exemplo. aí ele resolveu dar uma de mariana quando tá no banco do carona e disse que a gente não precisava estragar o sábado por causa do lugar, que não valia a pena discutir já que a sessão tava vazia. sentamos duas poltronas ao lado das NOSSAS, que estavam ocupadas por aquele casal imbecil com mentalidade de ameba, achando que é legal tirar vantagem do que quer que seja.

eu babei de raiva até o filme começar. praguejei até a oitava geração daqueles dois até que...JOHNNY DEPP! Ahhhh....ele apareceu pra me fazer esquecer todo o resto.

eu ainda torço pra que isso aconteça de novo comigo. porque aí, não vai ter vinícius nem johnny depp que vão me fazer desistir de brigar. se ninguém ensinou esses imbecis que respeitar lugar marcado é coisa de gente educada, eu vou ensinar. nem o shrek é tão sem modos quanto essas pessoas.

a sociedade ainda não tá preparada pra certas modernidades que exigem um pingo de educação.
lamentável.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

a arte de procrastinar

eu não devia estar aqui.
eu devia estar fazendo um trabalho sobre os problemas de mensuração nas pesquisas em neuropsicologia, mas estou aqui.
eu procrastino demais. mas é que o assunto do trabalho é chato demais também.
eu não gostaria de ser assim, mas parece que eu faço de propósito pra me distrair.
que droga. eu tenho que fazer esse negócio pra amanhã.

eu já nasci procrastinando. passei da hora de nascer por pura displicência. eu deveria ter nascido umas horas antes, mas eu quase morri por dizer "já vou nascer, peraí..."

isso me acompanha até hoje.
acho que meus neurotransmissores precisam de ajuda química. não é possível.
é muita dispersão.
é que tá frio também.
e quando tá calor, eu fico com calor, daí não dá pra fazer.
quando é dia, é porque ainda é dia.
quando é noite é porque já é hora de dormir.

eu detesto isso em mim.
tá chega.

domingo, 12 de julho de 2009

toda unanimidade é burra.

já falei que não gosto do paulo coelho.
ainda não falei que não acho o woody allen um gênio, talvez fale sobre isso um dia.
mas hoje eu quero falar de outra unanimidade, uma unanimidade regional: martha medeiros.

eu não vou questionar a capacidade intelectual dela. não porque isso seja indiscutível, mas pelo simples fato de ser indiferente para esse post.
o que me interessa é entender esse fenômeno vazio.
sinceramente, não sei por que ela ganha tanto destaque. vocês podem achar que eu sou invejosa ou racalcada. mas o fato é que só o que explica tantas mulheres se identificarem com ela, é essa frase fantástica do nelson rodrigues que serve de título.

martha medeiros é tão superficial quanto as mulheres que ela descreve e inventa. é tão oportunista quanto os terríveis homens que ela critica. qualquer dona-de-casa com tempo consegue refletir e escrever uma coluna igual -ou melhor- do que as dela. e não que as donas-de-casa sejam menos inteligentes. mas justamente pelo fato de não terem todo esse glamour e reconhecimento, o que é injusto, visto que a maioria dessas mulheres de verdade tem muito mais consistência pra falar sobre outras mulheres ou sobre elas mesmas. porque essas sim, vivem a realidade que ela tanto quer retratar.

as defensoras de martha podem dizer que isso é positivo, que significa que ela tem essa identificação com as mulheres.
seria. se ela não fosse um engodo. martha não é essa mulher super legal-prafrentex-descolada-livre de preconceitos-de coração enorme e compreensiva. não é. ela é uma pessoa que usa máscara. que se faz de legal pra atingir mulherzinhas suscetíveis que lêem crônicas bobinhas e tomam como verdade, se emocionam, se identificam. mulheres, acordem!

não existe mais espaço, em pleno 2009, pra discussões do tipo "homens são de marte, mulheres são de vênus", "porque os homens traem e as mulheres choram?". dramas românticos me enojam, me irritam. talvez alguma psicóloga explique isso um dia.
é muito fácil refletir sobre coisas que tocam as pessoas. é fácil enganar. paulo coelho faz isso. é extremamente simples jogar questionamentos ou frases feitas ao vento. e terminar com um ar de "pensem nisso..."

ontem vi o filme "divã". vi, porque apesar de ser extremamente crítica e preconceituosa nesse sentido (porque eu não vejo qualquer filme), eu sou legal e resolvi dar mais uma chance a ela. é que nem quando a gente esfrega os olhos pra ter certeza de que não está vendo coisas.
definitivamente, não dá.
o que salva o filme de uma grande vergonha do cinema nacional é a atuação brilhante da lilia cabral. é lamentável, superficial, simplista, uma grande baboseira. meus pais viram comigo. ficaram chocados com a falta de assunto.
não vou comentar o filme, quem quiser que assista. depois não digam que não avisei.

eu não sei por que nunca me identifiquei com a martha. talvez porque eu não seja tão facilmente corrompível, porque eu seja contra esse movimento mulherzinha que assola o mundo e os relacionamentos, porque eu seja totalmente contra a guerra dos sexos. mas eu prefiro mil vezes ler o david coimbra.

desculpa, martha. foi um desabafo.
que nem os que tu descreve. de mulher pra mulher.
assim, bem bichinha.

terça-feira, 30 de junho de 2009

solução - um post sobre o soluço.

hoje foi a festinha junina da clínica onde eu trabalho. entre pipoca, rapadura e bolo de milho, juntei forças pra organizar brincadeiras e até dançar. fiz trancinhas, pintei o rosto, mas tudo o que eu queria era me deitar. passei o dia mal, caindo aos pedaços, pra ser sincera. tudo isso porque me gripei. eu raramente me gripo. tenho crises de rinite, de asma, mas gripe mesmo, é difícil.
pois me gripei. tomara que não seja a AH1N1.

pois é. eu aguento tudo. aguento gripe, asma, rinite, sinusite, a crise no senado, a morte do michael jackson, a volta da Ivone em Caminho das Índias, TUDO ISSO JUNTO. menos soluço.
tenho raiva de soluço. os meus soluços doem. sei lá como, mas meu diafragma deve ser atravessado, porque dói muito soluçar. tenho vontade de me deitar em posição fetal cada vez que me dá esse negócio. é muito ridículo ter soluço.
fui falar ao telefone com um paciente...HIC! que patético. "desculpa, estou com soluço".
fora que todo mundo fica querendo te dar susto e essa é uma técnica nada eficaz. pelo menos comigo.

(quando a minha irmã menor era um bebê, eu inventei de dar um susto nela durante
uma crise de soluço. eu tive um surto de imbecilidade, cheguei perto da criança
e fiz "BUUUUUUUUU" com uma voz de monstro. óbvio que ela chorou até ficar rouca. pobrezinha. nem lembro se o soluço passou. morri de remorso.)


mas enfim. um dia desses, de soluço, me dediquei a pesquisar experimentalmente soluções para soluços (!). eis que cheguei a uma aliviante (!) conclusão: existe SIM uma maneira prática de fazer o soluço passar:
inspire normalmente. expire todo o ar que existe no teu corpo. TODO mesmo! até tu quase morrer. aí segura. tu vai sentir o soluço sair pela traquéia. fica ainda mais fácil se tu tiver sentado e te inclinar pra frente, encostando a barriga nas coxas. sério, o soluço SAI. como num arrotinho.

certamente existe uma explicação fisiológica pra isso que eu inventei, mas não quero saber. o que importa é que agora eu consigo me livrar desse negócio tão besta que é o soluço.

deu por hoje.
vou dormir.
bêjomeliga.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

R.I.P

tá, ele foi estranho.
mascarou os filhos, criou sua própria terra do nunca, mandou a melanina pelo ralo, jogou seu nariz fora, foi um dos precursores da escova progressiva, fingiu que ia jogar seu filho pela janela, casou com a filha do elvis, usava batom, rímel, lápis, foi acusado - e absolvido de abuso infantil...e vendeu 120 milhões de cópias de um único disco.
tinha um talento indiscutível.

gente estranha tem aos montes por aí.
mas outro michael, nunca mais.

obrigada, freak, por embalar minhas noites na BOATE de SAAS durante vários anos com boas músicas.


Michael Joseph Jackson
29/08/1958 - 25/06/2009

segunda-feira, 22 de junho de 2009

é muita emoção!

li hoje duas notícias que provavelmente serão as minhas duas grandes expectativas para 2010! não, uma delas não é a copa do mundo.
essa seleção tá muito antipática. todo mundo tem a mesma cara, eu não conheço mais ninguém a não ser o kaká e o julio césar. e o dunga me decepcionou como técnico.
saudades da seleção de 1994.



mas enfim.
serei rápida e objetiva porque meu coraçãozinho já tá transbordando de alegria!










Alice no País das Maravilhas by Tim Burton



os dois tão programados para abril.

serão 10 meses de muita ansiedade.

haaaaaaaaaaaaaaaaaaaaja coração!

que venha 2010!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

MENTAL

Estreou hoje uma série na fox, MENTAL.

É sobre um jovem psiquiatra que assume a direção da ala psiquiátrica de um hospital. Muito bem. O cara é cheio de estilo, charmosão e...totalmente alternativo. Tá, parece o House, eu sei, mas nessa série as doenças serão puramente mentais. E isso me interessa muito mais do que as inflamações podres que o House desvendava.

Chris Vance é Jack Gallagher e já no primeiro episódio (que eu acabei de ver) ficou peladão com um paciente esquizofrênico surtado no meio do saguão do hospital. Assim como o vinícius se sente meio culpado por gostar de aviões nesse momento, me sinto meio culpada por gostar de alterações neuropsicológicasepsiquiátricas. Quanto mais grave, melhor.

Sempre fui fissurada pelo cérebro humano. Só devo perder pro Hannibal Lecter.

Minha audiência é certa. Toda quarta, 22h, na FOX.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Coisas da vida

Em janeiro de 1983, eu era um lindo bebê de 8 meses, careca, sorridente e estava sendo paparicada por toda minha família, já que eu fui a primeira neta dos meus avós maternos.
Era calor, minha mãe e eu havíamos passado uma agradável tarde à beira da piscina na casa da minha vó. Existe uma foto daquele dia, eu naquele clássico carrinho azul-marinho com mãos e pés de bisnaguinha esticados, e aquele bocão que me acompanha até hoje.

Chegamos em casa e eu ganhei um danoninho. Ao final, com a boca ainda suja, fiquei brincando com a colherinha, daquelas de inox. Eu não sei por que motivo minha mãe me deixou brincar com uma colher, mas deixou.

Minutos depois, o acidente aconteceu: enfiei a colher boca adentro, cortando todo o palato mole (a parte bem do fundo do céu da boca, onde não tem osso) e separando a úvula (campainha) em duas partes.

Minha mãe, apavorada, ligou para o meu pediatra e assim, fui levada ao hospital. Ninguém sabia direito a gravidade do problema, só quando o pediatra falou pra minha mãe trazer umas roupinhas, pois eu ficaria internada para uma cirurgia, a ficha caiu. Desespero total na família.

Eu era um bebê de 8 meses e seria submetida a uma delicada cirurgia plástica para reconstruir toda a parte posterior da minha boca. Meus pais não tinham plano de saúde. Haviam acabado de comprar um carro. O gol foi vendido às pressas, pois meus pais queriam o melhor cirurgião do Rio Grande do Sul.

Então, ele apareceu. O doutor Roberto Chem tinha 38 anos. Restava aos meus pais, confiar cegamente naquele doutor tão afetuoso e de sorriso fácil (e que, por coincidência, havia sido professor da minha mãe no Mauá, cursinho pré-vestibular).

Minha mãe fez ele prometer que eu não ficaria fanha. Ele prometeu. Mais do que isso: desafiou meus pais a colocar o nome dele na capa da Zero Hora caso algo desse errado. Cumpriu a tarefa com maestria. Fiquei uns dois dias sem poder beber água. Meu pai também, junto comigo. Não achava justo eu passar sede sozinha. Fiquei com cicarizes, minha boca foi rasgada nos dois cantos, mas a cirurgia havia terminado com sucesso.

Alguns anos depois, a minha campainha reconstruída, virou o meu grande orgulho. Nunca hesitei em mostrar, pra qualquer um, a minha PANCAINHA TOLTA.

***

Quando escolhi fazer fonoaudiologia, eu não tinha idéia do quanto aquela cirurgia havia sido determinante. Um dia, em uma aula pertinente, contei meu caso. A professora, maravilhada, tentava explicar pra turma que a cirurgia, junto com toda a adaptação funcional que eu havia feito sem saber, tinha preservado coisas fundamentais para a minha profissão. Eu realmente corri um sério risco de ficar fanha ou ter problemas para engolir a comida.

Lembrei do Dr. Chem. Por uma sutileza do destino, aquele homem havia me permitido escolher a profissão que eu tenho hoje. Quando em formei, mandei um convite pra ele com uma cartinha, resgatando esse fato e agradecendo a dedicação que ele teve comigo.

Ele poderia ter feito aquela cirurgia de qualquer jeito, eu era só um bebê, podia apenas garantir que eu pudesse me alimentar. Mas não. Hoje eu sei o quanto ele foi preciso, minucioso, perfeito.
Ele me respondeu com uma outra carta, escrita à mão, emocionado, dizendo que a minha manifestação havia sido o maior reconhecimento que ele havia tido até hoje. Se disse orgulhoso, me parabenizou e mandou o arranjo de flores mais lindo que eu recebi quando me formei.

Infelizmente nunca mais o reencontrei, mas sempre tive muito carinho e gratidão por ele.

Hoje, por volta das 10 da manhã, meu pai me ligou:
-Filha, tu sabe quem era um dos passageiros do voo da Air France? Dr. Roberto Chem. Quis te dizer antes, pra tu não ficar sabendo pela tv.

Engoli seco. Os olhos se encheram de lágrimas. A tristeza parou bem ali na minha garganta perfeitamente remendada.

Eu não tive a oportunidade de reencontrar o médico mais importante da minha vida.
Mas ele me deixou as melhores cicatrizes, que eu vou carregar pra sempre.
Vou continuar tendo o maior orgulho de mostrar a minha campainha torta pra quem quiser ver.

Muito obrigada, Dr. Roberto Chem.